Vejo de mim, um desespero incalculável,
Qual uma partida que nunca aconteceu,
Uma dor de morte, uma ferida incurável,
Num pesadelo de quem nunca adormeceu.
Sempre vivi, vivo e viverei,
Num alerta que me prepara ao prélio,
Acho que ainda não estou muito velho,
Mas minha experiência eu sempre usarei.
No momento da partida se reparti,
Quebra-se um coração que sonhou um dia,
Sai de uma feliz e mentirosa fantasia,
E junta risos de uma vida que nunca se dividi.
Num lençol amarrotado uma tristeza
Por acreditar que o amor jamais acabaria,
Essa dor que arrebata do peito a alegria,
E de que há Deus, nos rouba a certeza.
Num espelho qual uma máquina obsoleta,
Vejo arder o tempo em pés de uma galinha,
Do sofrimento e da dor que é só minha,
Dessas rugas que mais parecem ruas estreitas,
Não voei na vida qual um albatroz,
Mas ainda busco plainar com sutileza,
Reencontrar no peito a certeza,
Qual num lindo voo azul da borboleta.
Esse sentimento cognato da vitória,
Nunca tive se não nos nascimentos,
Pois nos amores somente sofrimentos,
Poucos e muito raros momentos de vanglória.
Aqui no meu peito um riso meio tímido,
Uma leveza que ainda não se explica,
A saudade que ainda no peito implica,
E o amor que um dia será infindo.
Não busco voar num kamikaze assalto,
Ou na vontade de jamais pousar um dia,
Nas notas de uma bela melodia,
Que leva o sentimento para o alto.
Ainda sonho em plainar sobre o planalto,
Ainda que sozinho e desamado,
Serei por amor ao povo idolatrado,
E morrerei só por amor ter me entregado.
(Gilberto Magalhães)
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